A (nossa) incapacidade de ouvir

Posted on março 28, 2010

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“[…] Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais bonitos […]” (Escutatório, do Livro O amor que acende a lua, p. 65).
Rubem Alves foi muito feliz ao refletir sobre o fato de que as pessoas desejam aprender a falar (bem), mas não desejam aprender a ouvir, construindo a crônica que aborda esta questão, da qual retiramos o trecho citado. Fiquei pensando o quanto somos (ou já fomos) pessoas assim, incapazes de ouvir e vazias, a ponto de apenas querer falar.
A incapacidade de ouvir não se limita, neste caso, a questões físicas, quando há uma barreira orgânica intransponível (deficiência auditiva), ainda que muitos daqueles que não ouçam sejam capazes de entender muito mais do que outros que ouvem. A incapacidade de ouvir pode ser facilmente notada nas pessoas que crêem saber sempre mais que todos e quem pensa desta maneira acredita que os outros não têm nada a acrescentar, logo, não são merecedores de atenção, muito menos de serem ouvidos. Aí temos pessoas tão arrogantes e vaidosas que falam demasiadamente, sobre tudo e sobre todos! Acreditam que a sua forma de pensar é tão superior que enchem os ouvidos daqueles que muitas vezes se limitam ao mero papel que lhes resta: de ouvintes ou meros expectadores.
Há quem leve muito tempo para olhar o outro da forma como gostaria de ser visto, e enquanto isso não acontece, age como se fosse sempre o centro das atenções e “[…] fala demais por não ter nada a dizer”, como já dizia Renato Russo, em uma de suas músicas. Pessoas assim nem sempre agem desta maneira porque são mal intencionadas ou porque não se importam com os sentimentos e as necessidades daqueles que lhes cercam; às vezes, são realmente incapazes de enxergar o outro, tamanha a sua arrogância, vaidade e egoísmo.
Contudo, nem sempre os ouvintes ou expectadores se prestam a desempenhar este papel para sempre; as pessoas que sabem ouvir geralmente também gostam de falar, de repartir as suas experiências, de contar suas novidades, de desabafar seus problemas, ou contar suas conquistas… Mas isso somente se consegue com outro bom ouvinte por perto, com pessoas cujo bom senso e a capacidade de auto crítica são qualidades marcantes, uma vez que buscam no outro não alguém passivo, que apenas desempenhe um papel secundário enquanto o ator principal fala, mas que esteja junto no palco, falando das suas ideias, concordando, discordando, opinando e construindo a comunicação como esta deve ser: em duas vertentes. 
Que sejamos capazes de refletir sobre o nosso comportamento no processo comunicativo, avaliando o quanto falamos e o quanto somos bons ou maus ouvintes, já que “[…] ouvir é ouro e falar é prata”, como disse David Kolb, e cuidemos para que os nossos ouvintes possam também desempenhar o papel inverso. Seja, enfim, um bom ouvinte, e um ótimo falante!

Júlia Cristiane Schultz-Pereira

Posted in: Cotidiano