Diálogos

Posted on março 3, 2010

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Diálogo parece ser figura rara em nosso cotidiano. Vigoram todo tipo de conversas tortas, truncadas, sem pé nem cabeça, todo tipo de falatório que podem ser tudo menos diálogo.
Para ter diálogo precisa ter mais de um na interlocução, no entanto, mais que isso precisa haver presença real. Duas ou mais pessoas falando não implica em diálogo. É preciso mais. É preciso falar e ouvir, é preciso trocar idéias, trilhar um caminho de ida e volta em que se acompanha o que o outro aponta e se devolve algo de retorno. Diálogo nem sempre implica em acordo, mas sempre precisará dessa disponibilidade de via de mão dupla.
Outro ponto para pensar: o que mais vemos são as pessoas resolvendo suas questões com quem está diretamente envolvido nelas ou terceirizando, levando para outros, proliferando o tal disse-que-disse? O que mais vemos é a possibilidade de abertura relacional ou a ilusão de que compartilhar reclamações, críticas e demais depreciações já é uma grande intimidade e um real diálogo?
Precisamos retomar a capacidade humana de se relacionar, de estabelecer laços empáticos, de promover momentos de troca, da curiosidade sadia sobre quem é o outro diante de mim, da possibilidade de nos reconhecermos nas relações que vivemos. Apontar menos o dedo e estender mais a mão, abrir mais os campos de receptividade, exercitar a abertura que não é monólogo.
Parece haver um grande vício coletivo de se manter conversas em que ninguém está presente. Um fala aqui, outro responde ali, mas não há conexão. Vamos ficando desconfiados, fechados, vacilantes e com a impressão de que abertura é coisa de gente ingênua e que gente ingênua é passada para trás. Vamos nos fechando por precaução e logo nem sabemos do que estamos nos defendendo. No fundo, porém, há algo em nós que clama por mais. O “tanto faz” não soa verdadeiro e esperamos por mais. Desejamos ser ouvidos, desejamos conhecer o outro, temos anseio por contato.
Talvez não haja campo seguro mesmo em todos os lugares, talvez nem todos estejam mesmo dispostos a ouvir com atenção, ou nem sejam confiáveis para receber a minha exposição. Mas “tanto faz”? Por isso vamos deixar de lado toda a possibilidade infinita que faz de nossa espécie algo mais que corpo e instinto? Temos um dom e uma necessidade, que por mais que se tente calar, vivem acesos dentro de nós à espera de uma oportunidade, um lampejo, uma fresta.
Somos seres gregários, somos seres de relação e precisamos da vivência de conexão, precisamos de diálogo.

Juliana Garcia

Disponível em: <http://julianaggarciaineditos.blogspot.com/> Acesso em: 03 mar. 2010.

Posted in: Cotidiano