Dilbert: O utilitarista às avessas

Posted on agosto 27, 2009

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dilbertDilbert é o protótipo do pretendente a executivo carreirista e bem sucedido tão presente no cotidiano das empresas modernas. Vive em um ambiente tenso no qual impera “a puxação de tapete” e a “maldade programada”. 
As relações entre os funcionários dentro das empresas são o objeto de estudo das tiras de Dilbert.
A criativade de Scott Adams
Dilbert, a grande criação de um humorista não profissional, atualmente é publicado em 17 idiomas e 39 países, 1550 jornais atingindo cerca de cento e cinqüenta milhões de leitores.
Scott Adams, seu criador, pode ser considerado o protótipo de Bill Gates às avessas. Ocupou por vários anos cargos de executivo médio na Pacific Bell, empresa de telecomunicações, tendo durante nove anos vivenciando todos os modismos dos chamados modernos processos de gestão empresarial, continuamente postos em prática em nome da eficácia administrativa, elemento imprescindível na batalha pela competitividade cada vez mais acirrada no universo da gestão empresarial e na qual somente algumas empresas sobrevivem.
Tornou-se humorista nessas “horas ocupadas”, isto é, durante as intermináveis reuniões que não acabavam mais, horas propícias e indispensáveis para criar outras inutilidades do mesmo tamanho daqueles que estavam sendo faladas, como forma de manter a saúde mental. Dessa incômoda situação extraiu duas importantes lições:
1. O que é trágico, por outro lado, pode ser cômico pelo outro.
2. Pode-se ganhar dinheiro com os absurdos da empresas (desde é claro que o postulante saiba desenhar), principalmente, como já foi dito, durante aquelas horas reuniões chatas e intermináveis, na qual fazer charges é uma maravilhosa terapia de auto-esquecimento.
O personagem Dilbert, foi criado durante essas reuniões e viria rapidamente se tornar o símbolo do sujeito adaptado à realidade do mercado em constante agitação e delírio, a face sombria do “progresso humano” em plena era da globalização, na qual, uma grande legião de pobres “carregadores de piano” , trabalha até 16 horas por dia, considerando-se, entretanto, não escravo, mas sim ,o indivíduo moderno adaptado aos nossos tempos.
Adams teve a feliz idéia de publicar seu endereço eletrônico para os leitores relatarem suas experiências em situações absurdas sempre presentes no cotidiano das organizações, fato esse que gerou informações riquíssimas sobre a imbecilidade humana. Desses relatos, Dilbert retira material suficiente para publicações de suas tiras.

Fundamentos existenciais
Qual a razão de tanto sucesso de um personagem esquisito sem boca e de gravata torta que continuamente vive engolindo sapos de chefes incompetentes ?
Desde nossa mais tenra infância, fomos educados pela cultura cristã em que vivemos a nos comportarmos com franqueza e sinceridade em nossas atitudes, procurando sempre atingir o ideal do bom cidadão.
Quando nos tornamos adultos e entramos no mercado de trabalho, começamos a perceber a ingenuidade de nosso idealismo, pois o que impera em nosso capitalismo selvagem é a luta desenfreada pelo sucesso a qualquer preço. Percebemos que o mundo dos adultos está muito mais para Nicolau Maquiavel do que para Jesus Cristo. Então, conscientes da luta entre o que (a realidade das transações e dos motivos ocultos que se escondem atrás dessa) é e o que deveria ser (o ideal de solidariedade e do amor incondicional), muitos caíram em Marx (um modo materialismo e portanto, concreto, de recuperarmos os valores do espírito, evidentemente não de forma cristã).
Entretanto, a partir dos anos 90, com a queda do muro de Berlim e o fim da utopia comunista e a implantação do processo de globalização (que para Galbrait simplesmente não existe, e que globalização foi apenas um novo termo inventado pelos norte-americanos como tantos outros para justificar o colonialismo e a continuidade da própria invasão na soberania das nações do mundo), tanto os idealistas quanto os realistas tiveram que se adequar à essa nova realidade da economia mundial e seus reflexos repercutem no comportamento humano.
Somos todos burgueses, diriam os mais desesperançados e nessa perspectiva Dilbert é nosso herói.
– Quem é Dilbert ?
– Dilbert representa o estereótipo do empregado adaptado as exigências do sistema, incapaz de qualquer atitude no sentido de alterar as coisas à sua volta, conformado em ser mais uma peça de engrenagem emperrada. É melhor ser uma peça encaixada do que um peça fora do sistema. Por isso : é funcional, não questiona, é adaptado, agitado, insensível.
Confinado e espremido dentro de um minúsculo e cinzento cubículo, dentro do qual se refugia e pouco lhe resta fazer além de torcer para que seu chefe não o infernize e seu nome não venha a constar na próxima lista de demissões da empresa.

Roberto Bazanini
Artigo extraído de um trabalho apresentado pelo autor em Setembro/2000, no XXIII Congresso da INTERCOM, no GT Humor e Quadrinhos. Disponível em: Acesso em: 27 ago 2009.

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