Doutor?

Posted on maio 3, 2009

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diploma4Chega um paciente ao consultório médico e, ao contatar o profissional, diz: “doutor fulano”. Atende-se um advogado ou, até um “engravatado” bem vestido, na loja de departamentos, dizendo: “o que deseja, doutor?” Na oficina, na padaria, no posto de gasolina, na farmácia, e, até, na festa, no restaurante, ou no clube, há quem considere expressão “de respeito” ou de simpatia, chamar os outros com tal “título”.
Segundo os lingüistas pátrios, doutor é um título conferido àquele que, formado no ensino superior, recebeu, numa instituição universitária, o mais alto grau conferido, por ter defendido, com êxito (aprovação) um trabalho (tese), em matéria científica, literária ou artística. Não somos nós quem afirmamos, mas aqueles que, tendo estudado as origens e a aplicação de nosso vocabulário e língua, conferem perfeição e validade às palavras e expressões.
Entretanto, a prática é bem outra, e espelha-se nas situações descritas na abertura deste ensaio, e em muitas outras que a convivência interpessoal possa produzir. Recentemente, circulou na internet uma polêmica envolvendo um magistrado que exigia ser tratado como doutor (pela função de juiz, não por possuir o título) pelos empregados de um condomínio, onde o mesmo residia, alegando, entre outras coisas, certa “falta de respeito”, no que foi vencido na demanda, uma vez que reconheceu o Tribunal, que “doutor” não é um pronome de tratamento, como Vossa Senhoria, por exemplo.
A linguagem técnica e cortês dirige-nos à utilização do pronome “senhor” antes de qualquer nome, ofício ou pessoa que não conhecemos mais proximamente. É, neste sentido, uma aplicação da “etiqueta” da boa e correta conviviabilidade.
Se democratizamos a Universidade, se tentamos cada vez mais permitir o acesso dos brasileiros ao ensino superior, reduzindo, na outra ponta, o significativo quantitativo de analfabetos ou semi-letrados de nosso país, é importante, também, pugnar pela maior cientificidade da terminologia acadêmica que nos seja possível. E, neste sentido, louve-se o esforço, a dedicação e a especialidade de um profissional que se submete ao processo de qualificação e desenvolve aprofundados estudos (sentido estrito), para defender temática inédita e de relevância para a academia e/ou para a Sociedade.
Aqueles, portanto, que “exigem” ou “aceitam” a denominação “doutor” são usurpadores, quase que, comparavelmente, pessoas que cometem “falsidade ideológica”, principalmente quando usufruem, de algum modo, de certos benefícios ou vantagens no trato pessoal. Prepotentes ou vaidosos, exploram, inclusive, a boa-fé de muitas pessoas (justamente aquelas com menos “luzes” intelectuais), que pensam ser uma afronta ou má educação tratá-los sem a “adjetivação” correspondente.
Ciência, profissionalismo e merecimento são as três premissas para deixarmos de ser “analfabetos culturais”. Que comecemos tratando a cada um “segundo suas obras”, quando estas sejam as efetivas conquistas pedagógico-científicas em face das convenções de nossa era.

Marcelo Henrique Pereira

Posted in: Cotidiano